:: Aliança ::

Hoje meus pais completam 38 anos de casados. Isso mesmo, 38!

Sei que muita gente bem intencionada olha para o número e se admira: “nossa, quanto tempo!”. Também fico admirado pelo número. Afinal, vivemos em tempos em que casamentos mal duram 5 anos (fui otimista!).

Mas fico ainda mais extasiado por algo sutil, muito mais sublime do que o número e a ele subjacente, que muitas vezes passa despercebido: o conceito de aliança. Sim, aliança. Ouso afirmar, com tristeza, que talvez a minha geração não saiba mais o que significa se aliançar a uma pessoa.

Aliança. Aliançar-se. 
Lançar-se ao outro, inteiramente.
Doar-se de corpo e alma, sem medo.
Não recear mostras suas próprias fraquezas e vulnerabilidades.
Ser para o outro, no outro, apesar do outro…
Permitir-se transformar a partir do outro e pelo outro, apesar de si…
Viver para o outro, que não é mais outro, mas um comigo.

Aliançar-se é dar as mãos, entrelaçar os dedos e, por amor, caminhar na mesma direção. É, mesmo com lágrimas escorrendo do rosto no presente, sorrir diante do futuro e não permitir que vento contrário algum separe o que livremente se uniu. Não importa o que aconteça.

Aliança. Vejo a imagem de uma gaiola. Uma linda gaiola, daquelas bem desenhadas, delicadamente torneadas. Uma gaiola clássica, rústica. Em seu interior, vejo um pássaro a cantar. À primeira vista, pra quem olha rápido, pode soar como uma violência; parece que o pássaro está preso e, por instinto, sendo constrangido a assobiar. 

Mas aqueles que se encantam e aprenderam a admirar a cena na vida e a vida na cena, olham com mais calma e percebem algo inusitado: a porta da gaiola está aberta! Sim, o pássaro está ali, simplesmente porque quer estar. Ele podia sair, mas resolveu ficar. Podia voar, mas decidiu pousar. Teve motivos pra partir, mas decidiu esperar. 

E quem achava que aquele pássaro estava preso, agora entende que ele é mais livre dos que os outros pássaros… 

Só quem decide ficar preso por vontade sabe o que é a verdadeira liberdade. Só conseguir fazer o que se quer ainda é ser escravo. É em não conseguir fazer o que se quer que mora a liberdade. Só quem pode não fazer o que quer fazer é verdadeiramente livre. Os outros pássaros só podem voar. Aquele pássaro é diferente: ele pode não voar, porque ele decidiu não voar… pelo menos não sozinho.

E agora, só agora, eu vejo o quadro todo: o pássaro, que antes parecia estar preso, está livre e, por amor, sendo constrangido a assobiar. Afinal, o amor sempre nos constrange.

A porta? Bem, a porta continua aberta… (!)

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