:: Cicatrizes – uma mensagem de Natal ::

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Toda história tem suas próprias cicatrizes. É inevitável. O amor não correspondido, o amor realizado – mas desperdiçado, o filho que perde a mãe, o pai que enterra o filho, o amigo que te trai, a verdade que é ocultada, a mentira que é contada, a injustiça que te fazem sofrer, a promessa desfeita, a doença não curada, a fé desfalecida, a expectativa frustrada, a decepção inesperada. A história de todo ser humano carrega consigo as suas próprias marcas. Se tudo na vida faz sorrir, muito na vida faz sofrer. Viver dói. Viver sangra. Se por um lado é verdade que nunca viveu quem nunca sorriu, por outro nunca viveu quem nunca verteu lágrimas.

Com Jesus não foi diferente. Jesus viveu. O Deus que se fez menino sorriu, mas também chorou. Mesmo depois de crescido, pranteou amargamente ao perder um amigo. O Verbo eterno que se fez carne e habitou entre os homens, mesmo sendo a própria Palavra, diante da dor ficou sem palavras. O Mestre amou a todos intensamente, mas muitos dos que amou o odiaram. Alguns que juraram amá-lo e segui-lo o abandonaram no meio da caminhada. Os religiosos – justamente os que diziam conhecer a Deus! – o crucificaram.

Traído com um beijo no rosto por um daqueles que comiam à sua mesa, foi barganhado por trinta moedas de prata.
Perseguido, foi afastado dos seus mais chegados.
Rejeitado, os que lhe prometeram fidelidade fingiram não o conhecer.
Caluniado, em seus lábios colocaram  palavras nunca ditas.
Torturado, em sua cabeça cravaram uma coroa repleta de espinhos.
Crucificado, seus braços abertos foram pregados violentamente  no madeiro.
Morto, amargou em sua mãe terrena a pior das perdas: a que inverte o ciclo natural da vida.
Abandonado pelo Pai, sentiu nos próprios ombros o peso cósmico do pecado de toda a humanidade.

Essa poderia ser apenas mais uma história comum, de uma pessoa comum tida como criminosa, que passa pelos sofrimentos comuns que a vida impunha a um delinquente naquela época. Não é. Jesus, o Deus pleno feito homem perfeito, viveu a dor que você e eu vivemos, numa dimensão muito mais cósmica, metafísica e profunda.

Na verdade, essa história não tem nada de comum. É a história do Deus que resolveu entrar na História a fim de ter marcada em seu corpo as nossas próprias cicatrizes. Essa é história do Eterno que decidiu entrar no Tempo e carregar sobre si o nosso próprio sofrimento. Essa é a história da Palavra que se fez carne e se silenciou diante da dor, para que nenhum de nós precisasse mais aguardar num silêncio desesperador a inevitável vitória da morte sobre a vida.

Natal é isso: é Deus se fazendo homem, buscando o homem, procurando pelo homem e indo atrás do homem onde ele está, para que possa se fazer achado. Natal não é espírito ou sentimento natalino: é o Filho de Deus se fazendo homem para que todos os homens que nele crerem possam se tornar filhos de Deus. Natal é Deus dizendo que a morte não tem mais a palavra final, pois aquele que é a própria Vida nasceu para morrer e se fazer morte em nosso lugar.

Se toda história tem suas próprias cicatrizes, a história de Deus também tem… porque o Deus da Bíblia não é indiferente ao sofrimento humano! Todo Natal tem uma Páscoa. Todo Natal tem uma cruz. E a Cruz é Deus em Cristo reconciliando consigo o mundo. A Cruz é Deus em Cristo se solidarizando com todos aqueles que choram e ficam sem palavras diante da morte. A Cruz é Deus mostrando ao homem que em Cristo toda dor, por mais mortífera que seja, tem hora para acabar, pois o Messias não ficou eternamente pendurado no madeiro. A Cruz está vazia, a tumba também… A Vida matou a morte. Jesus ressuscitou!

Eu comecei o texto dizendo que toda história tem suas próprias cicatrizes. Tem mesmo; é inevitável. Mas em Cristo as nossas cicatrizes não tem mais o poder de nos ferir eternamente. Jesus carrega em seu próprio corpo as marcas do meu e do seu sofrimento. Mesmo em seu corpo ressurreto, suas mãos ainda estão perfuradas… Talvez para nos lembrar de que Deus tem cicatrizes. Talvez para que, ao olharmos para as mãos vazadas do Mestre, possamos nos lembrar de que Deus nos gravou na palma de suas mãos, pois Ele não nos abandonou à nossa própria sorte (Isaías 49.16). Talvez para nunca nos esquecermos de que, em Cristo, as cicatrizes da vida podem até nos fazer chorar, mas não são mais capazes de nos vencer. Pois é Deus quem dá a palavra final – e ele disse vida.

Que nesse Natal Jesus faça renascer em mim e em você tudo aquilo que não deveria ter morrido.

Por Fernando Khoury

 

 

 

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