Milagre impossível - menina em cima de um banco, após uma tempestade que inunda tudo, aguarda a água baixar para prosseguir seu caminho.

:: O conto que só a fé conta ::

O Milagre pelo qual ninguém mais esperava estava ali, bem ali na esquina da desilusão com a incredulidade, completamente esquecido, na penumbra, tremendo de frio, esperando perseverantemente a intercessão daqueles que não mais intercediam.

Um dia, naquela comunidade que há dias já não mais via a luz do sol, um senhor cuja pele enrugada evidenciava as cicatrizes da vida, cego de uma vista e totalmente cego no coração, estava vagueando por ali, bem ali naquele breu que é a esquina da desilusão com a incredulidade, quando tropeçou no Milagre. Assustado, e sem saber de quem se tratava, exclamou:

– Desculpe-me por ter me esbarrado em você!

– Não tem problema – respondeu mansamente o Milagre. Na verdade, eu até lhe agradeço. Havia até me esquecido de como é sentir na pele o arrepio que o contato com o ordinário gera em mim.

– Eu também senti esse arrepio… – balbuciou surpreso o senhorzinho. Por que estás assim, tão isolado, tão timidamente retraído?

O Milagre, até então de cabeça baixa, levantou sua fronte e, fitando o senhorzinho, respondeu:

– Estou sem trabalho. Estou perdendo a identidade. Dos que creem, poucos esperam pela minha chegada; desses, menos ainda são os que pedem que eu venha… e, mesmo quando eu chego, não há entre os humanos quem me reconheça. A verdade é que ninguém mais acredita em mim, nem mesmo os que dizem acreditar…

– Mas, afinal, quem é você? – indagou curioso o senhor.

– Eu sou o impossível que acontece. Alguns humanos me chamam de Milagre, mas a maioria nem me chama mais.

– Milagre? Ah, sim! Eu já ouvi falar de você. Lembro-me de minha avó – mulher valorosa e de fé, que Deus a tenha! – sempre mencionar o seu nome em nossas conversas.

– Sim, eu sei – disse nostalgicamente o Milagre. Que saudade da Dona Ilda… que saudade daqueles tempos! Sua avó era mesmo uma mulher de Deus, Sr. Maurício…

– Mas peraí! – exclamou surpreso o senhorzinho, interrompendo a fala do Milagre. Eu não havia dito o nome da minha avó, e nem o meu nome… Como você nos conhece, seu Milagre?

– Sr. Maurício… eu te conheço antes de você me conhecer, e antes mesmo de você se conhecer. Eu estava lá, naquela chuvosa noite de 23 de abril de 1945, quando sua avó pediu a Deus que não te deixasse morrer tão novinho, ainda tão pequeno e indefeso.

– Ah, então foi você? Você nos visitou outras vezes também?

– Todos os dias. Eu estava lá com vocês quando sua mãe chorou ao te dar o último pedaço de pão que havia em casa. Eu estava lá, durante aquelas madrugadas frias em que seu pai não tinha mais que um fino e curto cobertor para cobrir você e o seu irmão. Eu estava lá com você quando seus pais, depois de tanto tentar, acabaram se divorciando. Eu estava lá quando o pão voltou a chegar à sua mesa. Eu estava lá quando todos estavam bem de saúde. Eu estava lá quando dava tudo certo, eu estava lá quando dava tudo errado. Eu nunca saí de lá.

– Milagre, eu não entendo. Você é o impossível que acontece, eu sei… mas, afinal, o que de impossível acontece quando tudo dá errado? O que de impossível aconteceu quando faltou pão na minha mesa? Ou quando meu irmão acabou morrendo de frio naquela noite? O que de impossível aconteceu quando meus pais se divorciaram?

– Sr. Maurício, aí é que está o “x” da questão. Milagre não é aquilo que a fé conquista, mas sim aquilo que somente a fé percebe. Sua avó sabia me perceber mesmo nas derrotas. Às vezes, os milagres produzem a vida que tanto se quer ver; e os filhos de Adão chamam isso de conquista. Outras vezes, os milagres estão se empenhando em fazem brotar da morte a vida que ainda não se consegue enxergar; mas infelizmente os filhos de Adão chamam isso de derrota.

Enquanto o Milagre continuava a dar sua explicação, o Sr. Maurício começou a se lembrar amargamente de cada dor que havia padecido, e de todo sofrimento que ainda o prendia ao passado. E, tomado de um ar de revolta, retrucou:

– Mas eu não compreendo… não consigo enxergar onde está o impossível quando tudo dá errado.

– A fé, Sr. Maurício, enxerga o impossível exatamente onde ele não pode ser visto. Quando tudo dá errado, o impossível é que as coisas possam continuar caminhando a ponto de um dia voltar a dar certo. Quando só há lágrimas, o impossível é que se consiga voltar a sorrir. Quando só há morte, o impossível é que possa voltar a haver vida. Eu estou na maior de todas as curas, mas também na mais dolorosa de todas as perdas. Eu sou o impossível que acontece quando nada mais, por força humana, pode continuar a ser, para que, um dia, possa voltar a acontecer. Milagres acontecem todo dia, em todo lugar. Onde quer que existam males e dor, existe ali também a possibilidade divina do recomeço… e isso é o impossível: é Deus, diante da morte, dando a palavra final – vida! O impossível é o Espírito de Deus que ressuscitou Jesus dentre os mortos resolver habitar em suas criaturas, transportando-os da sexta-feira para o domingo: do vazio e da dor da morte para a plenitude da vida eterna.

A conversa acabou antes de terminar. Do meio pro final, o Sr. Maurício deixou o Milagre falando sozinho. Ouvir aquelas palavras era ver desferido contra seu orgulho, já tão machucado e míope, o duro golpe da afiada e amorosa espada de Deus. Endurecido, lembrou-se que estava quase na hora do culto de domingo, para onde seguiu abruptamente sem se despedir. É uma pena que o Sr. Maurício não tenha ficado até o final daquela conversa, a fim de receber a cura dAquele que primeiro fere o nosso ego para então nos curar por completo. Porque o maior milagre é o impossível que acontece no coração.

E o milagre pelo qual ninguém mais esperava continuou ali, bem ali na esquina da desilusão com a incredulidade, completamente esquecido, na penumbra, tremendo de frio, esperando perseverantemente a intercessão daqueles que não mais intercediam.

Por Fernando Khoury


Mateus 13.58
“E Jesus não realizou ali muitos milagres, por causa da falta de fé daquelas pessoas.”

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